quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Gabriel x MCK | Anseios diferentes em prol do mesmo objetivo | Favela x Talatona


O Gabriel o Pensador é um dos grandes rappers do Brasil isso é inegável, mas o rapper começou a fazer e fez sucesso num tempo onde o rap era muito marginalizado. O Gabriel fez sucesso com uma música que dizia “Tô Feliz Matei o Presidente”. E o publica real do rap nunca gostou de ver ele na TV e tal, já que ele não era do movimento. Apesar de ele ter sofrido censura por conta da música, dificilmente ele teria o mesmo aparato e passassem tanto pano se fosse preto e de quebrada. Mas em fim, o foco não é esse. 


O fato de o Gabriel não ser de quebrada, influenciou muito na época ele ser distante do real público do rap. Podíamos até ouvir o som dele, mas não víamos como alguém que representasse a gente como Thaíde e Dj Hum e o Racionais. Mas hoje muitos admitem que escutaram, mas nunca foram muito fã por preconceito e tal e hoje respeita o rapper bastante. 

Com isso muita gente (me incluo nessa) acabou conhecendo só as músicas que tocaram nas rádios FM. Uma música que passou batido é a música “O resto do Mundo”, faixa 10 do álbum “Gabriel o pensador” de 1993. Mesmo álbum que tem sucessos como: “Tô feliz matei o presidente”, "Retrato de um Playboy" e a politicamente incorreta, “Loraburra”. 

A música ‘O resto do mundo” que foi regravada muito mais tarde no primeiro álbum ao vivo do rapper (MTV AO VIVO, é um som tipo LADO B do álbum que fez muito sucesso em Portugal e por tabela chegou em angola. 

Na época do lançamento do álbum essa música não foi lançada como single, por tanto não foi muito vinculada em rádio, mas essa música tocou num programa de rap em Portugal. Como tudo que fazia sucesso em Portugal chegava em Angola, os programas de rádio no país africano também tocaram muito esse som. Após o primeiro dia em que tocou nesse programa de rap, o público começou a pedir a música do rapper brasileiro. O som fez tanto sucesso que o rapper foi a Portugal fazer um show e o ponto alto da apresentação foi quanto o rapper cantou a música “O resto do mundo”, geral cantando. 

A música é escrita em primeira pessoa, onde o rapper interpreta um mendigo que gostaria de ter o mínimo de dignidade. 

O refrão diz: “Eu queria morar numa favela” 

Essa música lançada em 1993 traz uma reflexão muito triste e bem atual, pois numa matéria do Observatório do Terceiro Setor de 2018 diz que no Brasil há mais de 100 mil pessoas em situação de rua, aponta IPEA. Elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).  

Umas das cidades mais ricas do país é São Paulo e segundo uma matéria da Folha de 2018 também diz que o número de pessoas em situação de rua na capital paulista cresceu 25% nos últimos três anos, de acordo com a prefeitura. O levantamento anterior, publicado em 2015, apontava 15,9 mil pessoas nessa situação. Hoje, calcula-se que sejam 20 mil. 

Eu sou o resto do mundo Eu sou mendigo um indigente um indigesto um vagabundo Eu sou o resto do mundo Eu não sou ninguém Eu não sou nada Eu não sou gente Eu sou o resto do mundo Um mendigo um indigente um indigesto um vagabundo Eu sou o resto Eu não sou ninguém 

Esta música traz uma reflexão fodida, porque essas pessoas passam desapercebidas por alguns e discriminadas por muitos e invisibilizadas pela maioria, principalmente pelas autoridades que não fazem praticamente nada para esse número diminuir. 

Frustração É o resumo do meu ser Eu sou filho da miséria e o meu castigo é viver Eu vejo gente nascendo com a vida ganha e eu não tenho uma chance Deus, me diga por quê? Eu sei que a maioria do Brasil é pobre Mas eu não chego a ser pobre eu sou podre! Um fracassado Mas não fui eu que fracassei Porque eu nem pude tentar Então que culpa eu terei 

Ouça:


Como dito lá no começo esse som não fez sucesso no Brasil, em São Paulo muito menos. 

Eu sou um grande entusiasta do rap angolano desde 2008, e desde então estou sempre acompanhado os lançamentos. 



Eu só conheci esse som do Gabriel, porque o rapper angolano MCK (um dos meus favoritos) lançou o som “Eu queria morar em Talatona” que é uma versão/remix do som “O resto do mundo”. 
Esse som foi lançado seis meses depois de seu terceiro álbum de estúdio chamado "Proibido Ouvir isto”. 

Também escrevendo em primeira pessoa, mas diferente do Gabriel, MCK não escreve que quer morar numa favela, mas sim em Talatona, que é a área mais luxuosa de uma das cidades mais cara do mundo para se viver, Luanda. 

Em quanto Gabriel escreve sobre uma pessoa em situação de rua que gostaria de pelo menos morar numa favela, para ter o mínimo de dignidade. O rapper angolano, MCK escreve em nome de boa parte da população de angola que mora nas favelas, na pobreza ou abaixo da linha da pobreza e adoraria morar na capital do país, Luanda, Talatona no caso. 

Em dezembro de 2019, o site Angop pulicou uma matéria onde pelo menos 41% dos angolanos (11.947.270 pessoas) vivem abaixo da linha da pobreza monetária, representando um aumento de cerca de 4%, comparativamente ao ano 2008, que se cifrou em 37%. 

Quero sítio urbanizado, onde habitar Todo arborizado, com vista pro mar Áreas recreativas, e centros estudantis Quadras desportivas e pátios infantis 

Botando em letra os anseios e sonhos do povo angolano, MCK fala sobre a vontade da maioria do cidadão angolano em ter uma vida digna e de luxo, tá ligado? De ter um esgoto canalizado, rua de asfalto e toda uma infraestrutura que existe na capital do país. 

Apesar de uma música falar sobre ter o mínimo, e o outra tendo anseios bem maiores, ambas têm como objetivo criticar o descaso do governo com o povo que mais necessita de suas políticas públicas. 

Eu não sou Gabriel, eu não quero favela
Cresci na miséria, estou farto dela
Quero vinho na mesa, filemíon na panela
Loiça de cristal, cansei da tigela

Ouça:

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