quinta-feira, 24 de setembro de 2020

#OPINIAO | Oh baby, I like it RAW - Sobre Hip Hop e Educação Sexual


TODO MUNDO AÍ PREOUCUPADO COM O CORONA VÍRUS, OU PELO MENOS DEVIA ESTAR, MAS VOCÊ DEVERIA MESMO ERA ESTAR PREOCUPADO COM A RACHADINHA!!! SIM, AQUELA DO QUEIROZ ... MAS VOCÊ TAMBÉM SABIA QUE AS INFECÇÕES SEXUAIS ESTÃO EM ALTA NO BRASIL? É ENTÃO!!!!

Durante as reflexões que me levaram a escrever esse texto, tentei a todo momento não parecer conservadora, mas trazer à tona outros aspectos do que é vivenciar o Hip Hop de fato e seus bastidores. Tudo aquilo que foge ao palco, ao flow, ao beat, as vestimentas, também é Hip Hop. Isso não tem a ver com quais espaços de lazer e vivência tem mais ou menos casos, não é um comparativo com outras culturas, isso tem a ver com como a cultura Hip Hop é potencial pra prevenir e discutir sobre questões diversas, inclusive de saúde, e como estamos tratando isso nos espaços que construímos. Uma chamada ao compromisso de quem constrói a cultura em movimento.

Essa chamada de atenção, não é sobre rap, sobre letras que objetificam mulheres, que quantificam relações sexuais e tratam a sexualidade apenas como prazer genital, mas também sobre isso, porque questões do tipo podem levar a frustração, e essas e esses jovens estarão presentes na vivência do Hip Hop na rua. 

Esse é um texto direcionado a todas as pessoas, jovens e adultos, que se relacionam sexualmente com alguém ou alguéns. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), todos os dias, existem mais de 1 milhão de novos casos de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), entre pessoas de 15 a 49 anos, de acordo com dados divulgados em Junho de 2019, isso equivale a mais de 376 milhões de novos casos anualmente de quatro infecções - clamídia, gonorréia, tricomoníase e sífilis. Desde os últimos dados publicados em 2012, não houve declínio substancial nas taxas de infecções novas ou existentes. Em média, aproximadamente 1 em cada 25 pessoas no mundo tem pelo menos uma IST, de acordo com os números mais recentes, algumas tem múltiplas infecções ao mesmo tempo.

Pesquisas demonstram que o uso do preservativo vem caindo com o passar do tempo, principalmente entre o público jovem. Doenças antigas, que imagina-se como superadas, como a Sífilis, por exemplo, ainda hoje pode ser considerada uma epidemia.

Tá, tudo isso é dado estatístico, e nem mesmo aliado aquelas fotos horríveis de um pênis ou uma vagina doente, que geralmente nos mostram na escola, são capazes de educar alguém. Já percebemos com as experiências das fotos atrás do maço de cigarro, ou do PROERD alertando para o uso das drogas, que a educação e conscientização através do medo de nada adianta. Se apelarmos pro emocional, onde abrir mão do uso do preservativo nas relações expõe a pessoa e as pessoas com as quais ela se relaciona às IST, piorou, pois grande parte das pessoas não tem responsabilidade emocional com outrem, imagina responsabilidade com a saúde. Então o que fazer? Nós não estamos mais na era vitoriana do Reino Unido, que englobava a restrição sexual, para que a energia fosse toda canalizada para o trabalho, nós vivenciamos a sexualidade de outras formas. Qual nosso papel enquanto consumidores e propagadores de uma cultura que agrega tantas pessoas e onde a maioria de nós achamos essa liberação de prazer sensacional? 

Bom, um clássico do rap dos anos 80, "Go See The Doctor" do rapper Kool Moe Dee, talvez foi um dos primeiros raps a fazer uma crítica às infecções sexualmente transmissíveis (IST's), de uma maneira extremamente superficial e machista, mas um dos primeiros raps a falar sobre o sexo e as consequências de transar sem proteção. Vou deixar o vídeo abaixo, mas eram outras épocas, outras narrativas.



TÁ! MAS EU MC AGORA TENHO QUE FICAR COMPONDO RAP DE SAÚDE? NÃO!! MAS NO MINÍMO ENTRAR EM BRIGA E DEFENDER QUE A EDUCAÇÃO SEXUAL NO CONTEXTO ESCOLAR  NÃO É SOBRE MAMADEIRA DE PIROCA. 

Até porque quando falamos Hip Hop não estamos falando apenas do "imbigo" do Rap, estamos falando de algo maior como citei na introdução. É uma questão de saúde pública, de políticas públicas e educacionais que nos alertem e nos previna. Que auxilie crianças para que identifiquem agressores, para que nossos adultos também identifiquem quais hábitos podem prevenir doenças e afins. MAAS, sabemos que nossos impulsos sexuais são a todo momento estimulados no dia a dia, e a música faz também grande parte desse estímulo. Os seres humanos fazem música há pelo menos 40 mil anos. "As notas musicais e o ritmo foram adquiridos a princípio pelos ancestrais masculinos e femininos da humanidade com o propósito de cativar o sexo oposto", escreveu Charles Darwin em A Descendência do Homem e Seleção em Relação ao Sexo. 

As estatísticas recentes do Brasil são alarmantes. As consequências dessas doenças são graves e podem levar o indivíduo a ter esterilidade, mais chances de ter câncer de pênis e no colo do útero, problemas na gestação e até infecções que podem levar a morte. Portanto, é muito importante e necessária a prevenção dessas doenças. 
Entretanto, ainda existem barreiras para resolver a questão. No Brasil, não é obrigatório a matéria de educação sexual nas escolas para os adolescentes, o que acaba privando muitos jovens de adquirir conhecimento sobre o assunto e os devidos cuidados. Outro fator importante é que grande parcela das pessoas que contraem ISTs vive anos sem reconhecer os sintomas. Esses fatos, em conjunto com a chegada da pílula anticoncepcional em 1960, cria nas pessoas a ideia que a camisinha serve apenas para evitar a gravidez, e assim os que não utilizam preservativo, seja por descuido ou falta de informação, acaba aumentando o contágio das infecções entre a população.

"As Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) são causadas por mais de 30 vírus e bactérias. Elas são transmitidas, principalmente, por meio do contato sexual sem o uso de camisinha, com uma pessoa que esteja infectada. O tratamento das pessoas com estas doenças melhora a qualidade de vida e interrompe a cadeia de transmissão dessas infecções. O atendimento e o tratamento são ofertados de forma gratuita nos serviços de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS)."

Essas ISTs têm um impacto profundo na saúde de adultos e crianças em todo o mundo. Se não forem tratados, podem levar a efeitos sérios e crônicos à saúde, que incluem doenças neurológicas e cardiovasculares, infertilidade, gravidez ectópica, natimortos e aumento do risco de HIV. Eles também estão associados a níveis significativos de estigma e violência doméstica.

Diante de tudo que foi exposto, encontramos na teoria de luta de classes do sociólogo Karl Marx, ou outras e outros pensadores que analisam a hierarquia social que vivemos, e podemos analisar que essa hierarquia reforça a persistência do problema da falta de educação sexual e avanço de doenças sexualmente transmissíveis, já que a burguesia por não estar no quadro de extermínio do medo, já que quando acontece, eles tem acesso a um tratamento preconce e de maior qualidade, pouco incentiva a remediação desses problemas na sociedade. E é nessa brecha que eu acredito que o Hip Hop deva se projetar. Recentes casos expostos na mídia, mostram que embora muita gente do Rap aponte o dedo pro funk pra problematizar a "cultura da novinha", acaba não olhando pro próprio quintal. Casos de MC's das antigas sendo expostos, e homens cada vez mais jovens dando mancadas diversas e até chegando aos extremos da violência de gênero e sexual, ou mesmo mulheres que objetificam corpos masculinos, entre outros diversos casos de discriminação e violência de gênero, orientação sexual e  identidades de gênero; já que a educação sexual não trata somente do ato sexual em si, mas informa e trabalha questões de sexo, gênero, identidade de gênero e orientação sexual, pois todos esses são conceitos relacionados à sexualidade humana, e trabalhar melhor essas questões no coletivo, evitaria a grande leva de imbecis infiltrada num movimento que deveria ser de emancipação e acolhimento as pessoas à margem da sociedade, já que na margem não está somente o homem cis pobre, mas sim uma diversidade de corpos.

O Hip Hop nos discursos quase sempre aparece como sendo a família, a representação da autoridade que ensina com afeto que muitos de nós temos. Porque também não pode se responsabilizar com a educação para relações afetivas com responsabilidade? Focando no Rap, não quis dar palco pra letras que seriam perfeitas pra expor a irresponsabilidade, mas selecionei 2 sons que acho uma delicinha, tem diferentes abordagens e exploram a sexualidade de maneira responsável.

Rico Dalasam feat. Dinho - Braille

Um comentário:

  1. Texto necessário. Disse bem, a burguesia nao sofre as piores consequências da negligência com a educação sexual, por isso é importante entender a sexualidade e sua construção dentro do antagonismo de classes no qual o hip hop se insere. Ótimo tema vindo à tona e com responsa, parabéns!

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