terça-feira, 6 de outubro de 2020

Vivemos em Território Inimigo | KL Jay, Anarka, Jota Ghetto e Amiri



Com Anarka, Jota Ghetto e Amiri nas rimas e o KL Jay na produção foi lançado em 2 de outubro de 2020 o som “Território Inimigo”, exatamente 28 anos após o Massacre do Carandiru. 

Após uma rebelião por conta de uma briga no Pavilhão 9 por conta de uma briga durante um futebol, a Policia Militar do Estado de São Paulo foi chamada para intervir na rebelião na Casa de Detenção de São Paulo, ação essa que resultou 111 detentos mortos. A intervenção da Polícia Militar, liderada pelo coronel Ubiratan Guimarães, tinha como justificativa acalmar a rebelião no local. A promotoria do julgamento do coronel Ubiratan classificou a intervenção como sendo "desastrosa e mal preparada"


“Dois ladrões considerados passaram a discutir

Mas não imaginavam o que estaria por vir

Traficantes, homicidas, estelionatários

Uma maioria de moleque primário

Era a brecha que o sistema queria

Avise o IML, chegou o grande dia

Depende do sim ou não de um só homem

Que prefere ser neutro pelo telefone

Ratatatá, caviar e champanhe

Fleury foi almoçar, que se foda a minha mãe”

Diário de um Detento, Racionais Mcs. 


O titulo do som foi inspirado no filme “Duro Aprendizado” com Ice Cube, Regina King e Laurence Fishburne, filme dirigido pelo saudoso diretor John Singleton. John Singleton dirigiu também Boyz N the Hood, Poetic Justice, Shaft, Bad Boy e Velozes e Furiosos

Em 2016 em entrevista a Carta Capital o Kl Jay fala sobre os pretos estarem em território inimigo e comenta sobre uma criança de 10 anos morto numa ação policial.


“O chefe do Estado é conivente, ele é racista! Ele é homofóbico também... Olha aí, a polícia matou um moleque de 10 anos de idade, meu! Na pior das hipóteses enquadra o moleque e prende ele..., mas matou o moleque e passou batido, passou batidoo!! O chefe que é o Alckimin tinha que sentar com a policia e: Oh! Ceis é louco? Oh meu! (...) É o seguinte ó: vamos mudar a mentalidade da polícia em São Paulo!”, comenta KL Jay.

“O Estado que tem mais dinheiro no Brasil agindo assim, que porra é essa, meu? ENTENDEU COMO É COLONIAL, ESCRAVOCRATA? Que se foda os preto, é os preto? Foda-se!!! Essa é a mentalidade” finaliza o KL. (Assista aqui)


E recentemente o DJ de 51 anos diz acreditar que a saída para o povo preto é o Pan-Africanismo frente a violência e o racismo. O pan-africanismo é um movimento de unidade, de caráter social, filosófico e político, que busca defender os direitos do povo africano. 


O SOM

Esse som foi muito bem construído com diversas referências e exemplos de que realmente nós pretos vivemos num território inimigo. Não tem como falar sobre todas, mas vou pegar uma referencia de cada MC e tentar exemplificar.

A música começa com um relato de uma mulher preta domestica onde ela fala sobre suas condições de trabalhado e como sua patroa a trata. Inclusive ela cita o fato do filho da patroa a considerar como “sua mãe preta”. Lembrando que o trabalho de empregada domestica é uma herança do tempo colonial escravocrata e muita madame ainda acha que é Sinhá!


ANARKA


“Trouxe a força de Zeferina na ponta da flecha

Miro e acerto a testa de facho

 Sei bem que querendo meu coro

Mas aqui não vai ter brecha

Minha luta é um ato centrado contra o sinhô e o capitão do mato”


Anarka traz em seus versos a força e a coragem da nossa ancestral guerreira e rainha Zeferina. Uma líder quilombola pouco conhecida, alias. 

Zeferina veio de uma região da África onde hoje é conhecido como Angola, ela chega com sua mãe Amália ainda criança em Salvador, na metade do século 19. Escravizada, sofrendo varias atrocidades que a escravidão lhe impunha, Zeferina sempre teve uma personalidade transgressora, Zeferina foge e sai em luta de sua liberdade e de seus iguais.

Zeferina fundou o Quilombo do Urubu e se tornou uma importante personagem das insurreições negra na Bahia no Século 19. Valente mulher, ela organizou índios, escravos fugidos e libertos, no geral, que queriam a libertação para todos os negros na província do Salvador. Segundo o historiador Walter Passos “uma mulher que conseguiu unificar, em pleno século XIX, homens e mulheres”.


Assista ao documentário Zeferinas – Guerreiras da Vidas.


“Sou estrangeira no país que ergue a minha custa”, Anarka


Após a parte de Anarka, surge o relato da Anielle, irmã da Marielle Franco onde ela diz que após a morte de sua irmã, ela perdeu o emprego em três escolas das 5 que ela trampava e quem segurou as pontas dela foi o movimento de mulheres pretas, já que a galerinha branca que grita “Marielle Vive” não está nem ai para a família. Esse “skit”, me lembra uma fala do Kl Jay em entrevista ao canal FodaseTV onde ele fala de a gente fazer as coisas entre nós: “Foda-se a esquerda, a direta, o centro, foda-se! A gente tem que criar o nosso, a nossa unidade no mundo... agindo, praticando”, KL Jay.


JOTA GHETTO


O Jota começa sua parte como? Foda! Se liga:


“Você viu aquele mano na porta do Extra!

Um racista que matou e a vítima preta não presta

Se a missão deles é matar um leão por dia

A nossa sempre vai ser criar mil leão por dia”


O Jota Ghetto começa sua rima usando como referencia “Mano na porta do bar” do Racionais, puxando um gancho para o caso do homem preto que foi morto no Supermercado Extra da Barra da Tijuca. O rapaz de 19 anos foi asfixiado até a morte por um segurança que presta serviço para a rede. Na época mesmo com a revolta de muita gente preta, surgiu uma pá de gente para inocentar o segurança dizendo que ele fez seu papel e tal. Não há relatos de que ele foi punido pela morte do jovem. Para o sistema um homem preto é sempre um perigo, preto não pode correr num bairro residencial que se torna suspeito (vide o caso do homem preto que estava fazendo seu exercício diário e foi perseguido e morto por pai e filho branco), entrar num mercado, shopping ou qualquer estabelecimento que eles entendem que um homem preto só frequentaria para furtar.


“Enquanto eu converso, vários pretos morrem”


Essa frase do Jota é muito triste porque ela é muito REAL!


Segundo o Atlas da Violência: Assassinatos de negros aumentam 11,5% em dez anos e de não negros caem 12,9% no mesmo período. 

Na matéria do G1 está “não negros”, mas nós sabemos que a morte dos indígenas não tem diminuído, já que em 2019 um estudo diz que aumentou 20%. Então, logo deduzimos que a morte de brancos diminuíram 12,9%.

Em 2018, os negros representaram 75,7% das vítimas de homicídios. Segundo o estudo, a discrepância entre as taxas de homicídio dos dois grupos significa que para cada indivíduo branco morto em 2018, 2,7 negros foram mortos. Em Alagoas, para cada branco vítima de homicídio, morreram 17 negros.  Trecho tirado do G1


“Mania de perseguição? Não meu amigo! Isso é saber que eu sobrevivo em território inimigo” fecha Jota Ghetto.


Vindo de encontro aos versos do Jota Ghetto e dos dados acima, a música tem outro relato pertinente: o relato de mulheres no caso da Maria Eduarda, criança de 13 anos morta quando estava na quadra da escola onde estudava.


AMIRI


“Nós 3: Anarka, Amiri e Jota na Pista e o Kl Jay que tuf tuf, risca

Isso que chamo de bala na agulha

Tendo o tipo de cor que para a patrulha

Mas como eu não sou um branco de Dread, fato!

Que recebo outro olha desse bando de pé de pato”


Diante de tudo dito acima, o que o Amiri rima é só o arremate final para deixar tudo mais explicito do que já é! Nesses versos o rapper paulista fala que basta não ter a pele alva como a neve para ser parado pela polícia. E ainda o rapper da uma direta sobre o fato de como estilos afro em pessoas brancas não são vistas como marginalizada. 

Vale lembrar que pretos e pardos são os mais abordados, agredidos e mortos em ações policiais.


O Estudo do Instituto Locomotiva e da Cufa diz que 54% dos pretos e 29% dos pardos creem que ‘a polícia é perigosa para pessoas como eu’

Um estudo divulgado em julho de 2020 aponta que 50% dos negros sofreram algum tipo de situação de violência policial no Brasil, enquanto 4 em cada 10 brasileiros de periferia relatam ter sofrido algum constrangimento do tipo. O levantamento é do Instituto Locomotiva, em parceria com a Central Única de Favelas (Cufa), e foi apresentado em transmissão ao vivo de um fórum promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

A pesquisa diz que 50% dos negros (pretos e pardos) ouvidos afirmaram que já passaram por situações de constrangimento durante um enquadro da polícia, como desrespeito, agressão verbal, agressão física, extorsão, pedido de dinheiro ou suborno.

Considerando a classe social, a pesquisa mostra que homens negros pobres sofrem mais desrespeito policial do que homens brancos pobres.

Primeiro, o estudo informa que 64% dos homens negros das classes C, D e E já foram abordados pela polícia.

Abusos já sofridos, 42% dos homens negros de baixa renda já se sentiram desrespeitados quando abordados pela polícia, enquanto 34% dos homens brancos de baixa renda sentiram o mesmo. Além disso, 35% dos homens negros pobres já sofreram agressão verbal quando abordados pela polícia, contra 27% dos homens brancos na mesma condição social. Sobre as agressões físicas, 19% dos homens negros de baixa renda declararam já ter sido vítimas, contra 12% de homens brancos pobres.


“Na favela, enquanto o jovem branco ainda tem a cor do poder, o jovem negro tem a cor da pobreza. Os jovens negros da periferia sofrem mais do que os jovens brancos da periferia”, ressaltou o presidente do Instituto Locomotiva.

Trecho tirado da matéria da Carta Capital


Vale lembrar que em 2013 vazou um documento oficial da policia militar de São Paulo, onde o coronel da PM enfatiza em intensificar as abordagens em indivíduos de cor parda e preta. O comando da Policia Militar de Campinas (SP) deixou vazar um informe enviado a uma equipe de um bairro determinado de Campinas, cujo a ordem era focar em “indivíduos de cor parda e preta” O pedido, assinado pelo capitão em exercício, foi enviado no fim de dezembro daquele ano. A PM classifica o episódio como "deslize de comunicação".


Resumindo as ideias: Viemos pra cá forçados, fomos forjados a escravidão, construímos esse país a base de suor e sangue, vivemos nas camadas mais baixas da sociedade e ainda não somos bem vindos. 

A fita é resistir porque o plano deles é nos exterminar!


Confira Território Inimigo:



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