segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Estamos numa época em que o conservadorismo e a ideias de ultra-direita reverberam, saem das elites dominantes e entram nas periferias e favelas.



O Brasil é um pais onde a maioria da população é negra, em 2015 dados apontam que 54% dos brasileiros se declaram pretos ou pardos.
Apesar de oficialmente nossa republica federativa ser laica, na pratica não funciona. Somos um pais de maioria cristã, dentre estes cristãos, os evangélicos protestantes e pentecostais são maioria.
Onde eu quero chegar? Com o aumento destas denominações nas quebradas, atos de intolerância tem aumentado drasticamente a ponto de acontecer atos de violência física e psicológica. 
Sabemos que isto tem um viés racista, pois as únicas religiões que sofrem com preconceito sãos as de matriz africana. Budistas, Hindus ou espiritas kardecista não passam por isto. 

Nós do NP, nunca ficamos em cima do muro e nos posicionamos diante de fatos como este. Mas desta vez achamos importante pegar a opinião de pessoas do rap, pois estes atos de racismo tem acontecido dentro da nossa cultura. 

Algumas semanas atrás, soltamos o artigo - Intolerância religiosa. E o que o Rap tem a ver com isso?. Neste artigo escrito pela Ana Rosa, tem trechos de declarações de: Jair Cortecertu, Lucas D'Ogum, Souto MC, o grupo Omnira, Lázaro (Opanijé), Anarka e Thiago Elniño.


Num trecho do artigo escrito pela Ana Rosa, diz: 
"O movimento Hip Hop é concebido como um movimento de resistência, e principalmente de denúncia contra a figura do opressor. Sim, existem vertentes que não pautam nada disso em suas letras, mas implicitamente levam consigo, o movimento em si leva esse pilar junto dele, ou pelo menos deveria."
Vale lembrar que o Rap e o Hip Hop, são manifestações culturais que são enraizadas na cultura preta e africana. É incabível ato racista ou intolerante dentro da cultura.

Como dito acima, pegamos declarações de algumas pessoas ligadas ao rap e que praticam a religião. 

Entrevistas anteriores:
Lazaro Erê Castro, membro do grupo baiano Opanijé - 

Não adianta arrotar negritude e cuspir na história de nosso povo desrespeitando o candomblé.



Neste edição de 20 de novembro o convidado Jair Cortecertu, que é bibliotecário, blogueiro e DJ. 
O Jair escreve para o site Zona Suburbana e Acervo Folha.

Perguntamos ao Cortecertu: Diante desta onda de intolerância religiosa para com as religiões de matriz africana. Qual a importância de rappers se posicionarem diante destes fatos?

O Jair responde: Sabemos que nenhum artista é obrigado a marcar posição diante determinadas cenas de desigualdade, mas também sabemos que, ao escolher ficar distante do que está rolando nestes casos de racismo religioso, todo artista está tomando uma posição que não é nada neutra. Essa atitude é um foda-se para um processo racista que invade todos os âmbitos da vida dos negros brasileiros. As religiões de matriz africana têm sido exemplo de resistência durante anos e, mesmo com “pessoas descoladas” que estão no seio da umbanda e do candomblé, são os negros e toda sua ancestralidade que estão na mira da violência promovida no passado por policiais e hoje praticada por traficantes. Muitos citam a Biblia para falar que estes traficantes não representam os cristãos e são “falsos profetas”. Até concordo com essa afirmação, mas sabemos que estes ensinamentos de intolerância e racistas vieram, num primeiro momento, da intransigências dos ”verdadeiros profetas”. Tudo isso via culto, rádio, TV, site e redes sociais.


Preguntamos também: Tem alguma explicação de onde vem esta onda conservadora que vem dominando as quebradas e o rap?

O Cortecertu responde: “Um lugar onde só tinha como atração um bar e o candomblé pra se tomar a benção…”
Lembram da letra do “Homem na Estrada”, dos Racionais? A realidade da periferia era diferente, religiões de matriz africana estavam nas periferias e o neopentecostalismo também tinha força, mas o protesto contra o racismo, os efeitos do neoliberalismo, as histórias do crime e a redenção através da fé não traziam essa ideia de exclusão que rola hoje. Estamos numa época em que o conservadorismo e a ideias de ultra-direita reverberam, saem das elites dominantes e entram nas periferias e favelas. As pessoas mais pobres, num caldo que mistura falta de informação com informação falsa, falta de perspectiva de emprego, de saúde pública que preste e melhor educação, acabam buscando soluções e novos-velhos heróis autoritários, preconceituosos, racistas, mas que se proponham a melhorar sua vida. Isso afeta as ruas, as novas gerações que fazem arte influenciada pelas ruas e, finalmente, desemboca no rap.


Pra terminar, perguntamos: De que modo combater tudo isto?

Ele responde: Cara, o bagulho é o seguinte! Temos que mostrar artistas e militantes que nos representam de forma efetiva, combinada e compartilhada. Investindo grana ou na brodagem, mas temos que começar já! Essa porra já demorou demais! De que adianta compartilhar a parada do Douglas e de outros artistas que estão tocando um foda-se para as questões progressistas, antirracistas e que colocam o cristianismo e a heteronormatividade como padrão de vida para todos. O que gerou mais debate entre os nossos? Os discos novos do Omnira e do Gegê, do Fabriccio, Crônica Mendes, entre outros, não estão sendo debatidos por tudo que combatem e vão ao encontro do que acreditamos. Os artistas têm responsabilidade e precisam tomar atitude? Sim, acredito que sim (mesmo sabendo que não são obrigados), mas as produtoras, assessorias de imprensa, e blogueiros, entre muitos nesse grande sistema de colaboração criado no hip hop, também precisam destacar os grupos que respeitam nossa ancestralidade.




"Metade do conhecimento consiste em saber onde encontr??-lo." (GROGAN, 1995, p. 7)

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