terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Contextualizando e dando algumas impressões do som "Arte do gueto", do Slim Rimografia


Você viu mano? o Slim gravou um Trap.
Foi o que eu ouvi quando o Slim lançou o single "Arte do Gueto". Eu estava numa semana lotada de trampo, dei play e quando ouvi o auto tune, desisti de ouvir até o fim.
Acabou passando batido por um preconceito meu de não ter dado atenção à letra por causa do auto tune. Gosto de trap, mas tenho dificuldade em aceitar o auto tune.

Nesta semana que passou, o Slim lançou o clipe e reparei que tinha escutado algo parecido e, me dei conta que era aquele som que eu não havia dado atenção.
Assistindo o clipe, acompanhado a letra, mais o visual, comecei a gostar e me identificar com o som.
O Slim é referência de rap aqui na região da M' Boi Mirim e em São Paulo também claro. Quando eu o vi cantando "é arte do gueto irmão, o din tem que voltar pro gueto" e ver ele performando com os pés descalços em sua quebrada, dei um passo atrás na minha primeira impressão.
Porque eu citei o fato dele tá com os pés no chão, o som fala de progresso, muitas pessoas confundem querer ganhar dinheiro com ser vendido ou querer ostentar. O Slim descalço de frente de uma quebrada, falando de progresso de favelado, resgate do rap para a periferia e juntando tudo isto, ele passa uma imagem de humildade e respeito as origens, não tirar os pés do chão, saca? Foda-se que é trap e tem auto tune, a mensagem que ele passa supera isto.

Prestando atenção no conteúdo da música, resolvi passar minhas impressões de algumas linhas do Slim e tentar contextualizar com fatos que eu penso e vejo no cenário atual do rap.
Não tô aqui pra analisa flow, auto tune ou beat. Tô aqui pra mostrar que independente da vertente, a mensagem que seja cantada no rap, tem que ser valorizada.




"É som de preto de favelado e quando toca ninguém fica parado". Eu sei que você leu cantando este trecho da musica "Som de Preto" do Amilka e Chocolate. Por uns bons anos esta frase se aplicaria perfeitamente ao rap brasileiro.

Enquanto o rap estava no gueto, falando sobre racismo, desigualdade social, narrando as fitas que acontecia na quebrada, ele sempre teve um viés de resistência, de cultivar a cultura periférica e de não se misturar com boy branco.


Hey boy o que você está fazendo aqui
Meu bairro não é seu lugar
E você vai se ferir. 
ou 
Playboy bom é chinês e australiano,
Fala feio, mora longe e não me chama de mano



"Hey Boy" e "Da ponte pra cá" ambas do Racionais Mc's

Porém ao mesmo tempo ele sempre buscou ser aceito, está aceitação acabou "acontecendo". Escrevi com aspas, porque na verdade o rap aceito ele tem um padrão de letra e estético.
Ele fala de amor, festa/rolê e se fala de algo sério usa palavras politicamente correta para poder entrar numa programação de rádio ou tv.
E temos um "fenômeno" estranho que é romantizar a vida bandida, falar sobre drogas no contexto como se fosse algo bom, ou algo para fugir dos problemas "reais". E isto tem tido muitas visualizações na internet.
É bem nocivo e preocupante, já que o forte do rap nacional hoje é o YouTube, se você for MC e não tiver no YouTube, você não existe.
O público de YouTube no Brasil que consome rap, ele tem entre 13 e 20 anos e sem sua maioria não é de favela, na periferia nesta idade em sua maioria ouve funk.
Eu acredito que as pessoas do rap que buscaram a aceitação do rap ou seja que ele se tornasse popular, não imaginaria que os boy fosse gostar de rap ao ponto de querer fazer e dominar a parada.
Porque os boy dominam o rap? vivemos num mundo capitalista, certo? E meritocracia não existe, no rap muito menos. Se você não tiver dinheiro para investir no seu trampo, esquece. Só com talento você sofrera muito para conseguir que seu trampo tenha visibilidade.
Os Boy tem dinheiro, tempo para aperfeiçoar seu talento e se não der certo? foda-se, ele teve bons estudos, boa educação vai se inserir no mercado de trabalho fácil.


Vamos para a contextualização de certos versos do som do Slim.

A musica arte do gueto começa pelo refrão e no refrão, o Slim solta uma linha que merece ser um mantra, confira.

É arte do gueto, irmãoO din tem que voltar pro guetoÉ arte do gueto, irmãoO din tem que voltar pro guetoÉ arte do gueto, irmãoO din tem que voltar pro gueto

Este verso me parece bem claro pra quem vem de uma época em que o rap era restrito a periferia.

Porque ele diz isto? o rap não é som de preto e favelado? claro que é! mas quem são os mcs que tem destaque no cena? quem é o publico que consome rap hoje em dia? qual o perfil da maioria do ouvintes de rap brasileiro?


Vamos ao ponto. Os eventos de rap de maior procura, são em casas de shows em áreas nobres e centrais, isto afasta o publico pobre dos shows de rap. Boa parte do publico pobre consome show de rap na quebrada, Sesc ou eventos de rap gratuito.

E quem são as pessoas que tem ganhado dinheiro com rap? seja Mc, profissionais e pessoas entorno disto tudo? não tenha duvida que não é o favelado. O rap gangsta dos anos 90 tem muita influência nisto, por anos eles "abdicaram" de ganhar dinheiro e, isto meio que virou um manual de conduta no rap, quem ganhava dinheiro era vendido. Isto atrasou o rap em anos, o resultado tai, o rap cheio de playboy ganhando grana. Seja em cima do palco, ou em seu entorno.


Trecho do livro "Na minha pele" do Lázaro Ramos.


Ganhar dinheiro, sim. O dinheiro tem que circular por mãos pretas. Culpa por ganhar dinheiro nunca fez muito sentido, jovem amigo.
Para o bem e para o mal, o dinheiro é um propulsor. Ser bem remunerado e realizar seus projetos são sim metas importantes.


Baseado nesta fala do Lazaro Ramos, escrevi um texto falando que temos que fazer o dinheiro girar entre nós favelados, nós de periferia.



Segue um trecho:

Isto vai soar muito como um discurso progressista, mas infelizmente vivemos num sistema capitalista e não temos culpa disto. Já dizia o Emicida: "não criei o capitalismo eu vivo em meio ao abismo". Como a revolução não deu certo no período da ditadura #SalveMariguella, eu acredito que para algo de imediato, temos que criar meios de ganhar dinheiro e fazer girar entre nós, e "sem medo, sem culpa" como diz o Kl Jay numa intro do álbum Goodfellaz do 5 pra 1.

Confira o texto na integra Aqui



Pulando para a segunda parte da musica.

O Slim solta a seguinte frase:
O progresso do rap me lembra o congresso: poucos preto
E dá pra contar na palma da mão dos branco



Esta frase vai de encontro ao que eu escrevi acima, quem ta ganhando grana com rap não é preto, nem favelado. 
Claro que vai ter um mc ou outro. Mas da cena atual do rap, esmagadoramente é branca.

Recentemente a pagina "Hip Hop e Mercado", soltou uma lista dos 10 canais de rap com mais inscritos no youtube.

Dos 10 canais no Youtube que tem conteúdo de rap, no caso de Mcs, 1 é preto que é o Projota.

Alem do dinheiro que gera por visualizações, os artistas em questão fazem muito show e vivem de rap tranquilamente. Quando vocês verem a lista abaixo, vão ver que são artistas "Gourmet", fazem um rap esteticamente parecido como o que eu citei no começo do texto, segue aquele padrão branco, pop e gourmet.


Talvez esse seja meu maior defeitoRapper de causa, causa efeitoTalento pra fazer hit, insiste em lutar por direitosEles gostam de punchlines, eu sou One Punch ManEntediado com essa cena fraca, uma linha de soco e não sobra ninguémTambém quero mansão, notas amansamPovo não avança, só regredirSó rapper gourmet, fofoca de MCQue só alimenta ego e só foca em si 

Não que o Slim esteja sendo contraditório, mas ele usa da mesma arma dos novos mcs para "ataca-los".
O Slim, usa suas rimas fortes, que hoje chamam de punclines (linhas de soco), se "apropria" do beat de trap e se apropria bem diga-se de passagem.
O trecho que quero comentar é este: Só rapper gourmet, fofoca de MC Que só alimenta ego e só foca em si

Quero comentar esta parte porque já faz anos que um parça meu comenta que atualmente "Mc faz som para outro Mc". O que ele quer dizer com isto? É que o Rap game, literalmente virou um jogo.

Atualmente boa parte dos MC's que estão naquele famoso "Hype", não estão preocupado em passar uma mensagem para seu publico. Quando falo mensagem não to falando só de politica, mas de algo proveitoso, algo que não seja dizendo que fulano de tal tem inveja dele, que ele ta no topo, que ele lutou pra ta ali e etc. Eu sinto falta de storytelling como: O quinto vigia, Homem na Estrada, Eu não pedi pra nascer e por ai vai.

A maioria dos sons são bem egocêntrico ou atacando outro mc. E muitas vezes nem tem treta, o cara canta rap a menos de um ano e já ta falando de alguém ter inveja dele.

Eu não sou a pessoa mais saudosista do mundo, não gosto de saudosismo, mas tem hora que sinto falta de ouvir que;"que rap é música de bandido" ou "música de preto".
O cenário atual do rap em sua maioria virou algo superficial, alguns mc's se preocupam muito com a estética de suas rimas e não com a mensagem em si. 
Uma coisa que eu ouvi o Thaíde falando sobre o cenário atual do rap, é que "os Mc's estão preocupados em dizer o que as pessoas querem ouvir e não o que elas precisam ouvir". Isto é muito real!
Querer que o rap volte a ser o que era nos 90, é loucura, chega ser um discurso utópico.
Mas os loucos, os que pensam em mudança, chegam sempre a beira do utopismo, beirar a utopia é o que nos move e nos torna resistente. certo?

Se você chegou até aqui e ainda não assistiu o clipe, confira!