domingo, 18 de março de 2018

Marcello Gugu nos da uma aula de conhecimento falando sobre: Influências, Infinity Class, Batalha da Santa Cruz, álbum novo e muito mais


O Marcelo Gugu é aquele tipo de MC que eu particularmente paro para ouvir sua musica ou entrevista.
Dentre vários mc's que a Ana e eu admiramos, certeza que o Gugu está em nosso "trending topics".
A ideia de entrevistar o Gugu surgiu após a Ana escrever um artigo sobre as referências da musica “O balé de Muhammad Ali”.


Nesta entrevista, o Marcelo Gugu fala de como a musica "O mano na porta do bar" mudou um pouco sua vida, fala sobre sua famosa palestra Infinity Class, sobre sua parceria com DJ Duh, seu primeiro trabalho o "Até que enfim Gugu", sobre a batalha da Santa Cruz, fala também do episódio épico de como e quando o Cabal colou para batalhar na Santa Cruz (inclusive eu conheci a batalha na época por conta do vídeo) e claro ele fala sobre seu próximo álbum chamado "Indigo".


Sem mais delongas vamos a entrevista.



Bom, primeiramente a gente quer agradecer você ter aceito a entrevista mano, sério. Eu, Anderson sou teu fã uma cota já e fico feliz mesmo, a Ana nem se fala rsrs.
É meio clichê, mas eu começo sempre as entrevistas pedindo para o convidado se apresentar. O Marcello Gugu, rapper e educador talvez geral conheça. Então, quem é o Marcelo de Souza Dolme?

Gugu: Carolina Maria de Jesus diz que a vida é igual um livro, só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. Pensando assim, talvez a definição de quem realmente somos só vamos poder dar no ultimo segundo de vida, afinal, naquele momento seremos o resultado final de nossa jornada por aqui, porém, por hora, se eu tivesse que me definir, diria que sou um adulto índigo (risos) que rabisca alguma coisa por aqui e por ali e que dorme muito pouco. No mais, “de Souza Dolme” e “Gugu” não se distanciam em nada, não tenho esse lance de “personagem”, tanto que se precisasse definir, diria que um é complemento do outro, o que torna ambos a mesma coisa: um Mc apaixonado pela cultura Hip Hop, que acredita no poder transformador da arte e que tenta criar imagens usando palavras por que um dia quis desenhar e não conseguiu.

Gugu, faz uma cota já, vi uma entrevista sua no YouTube, em que você diz que o primeiro rap que você ouviu foi "O mano na porta do bar" do Racionais Mc's. De que modo esta música influenciou você a gostar de rap?

Gugu: A música sempre foi uma linguagem muito presente na minha vida. Meu pai é guitarrista, minha mãe muito fã de MPB, então cresci em um ambiente que cultivou muito pouco do silêncio. Sempre alguém estava ouvindo alguma coisa. Comecei sair muito cedo, e na rua, não foi muito diferente. A vivência do skate me trouxe muitas referências de universos distintos. Cada um andava com um walkman e algumas fitas k7 no bolso e estávamos sempre trocando som.
Quando ouvi ‘O mano na porta do bar’ do Racionais senti algo que jamais tinha sentido. Cresci no Ipiranga e quando era criança tinha um tio chamado Kiko, já falecido, inclusive de cirrose, que me levava pro bar pra vê-lo jogar sinuca, beber e etc... E quando eu ouvi a música, imediatamente surgiu a imagem do meu tio, a rotina dele, e um cara que eu nunca tinha visto ou ouvido, narrava detalhadamente a vida de alguém muito próximo a mim e isso me causou um choque tão grande que, levei anos pra encontrar Racionais Mc’s desde o dia que ouvi, mas nunca esqueci a sensação que tive daquele dia. Até hoje me pergunto o quão forte aquela música bateu e penso que talvez aquele momento tenha despertado algo em mim e hoje, mesmo que inconsciente, talvez tente despertar o mesmo nas pessoas que ouvem minhas músicas. Se parar pra pensarmos, é incrível o quanto músicas marcam momentos de nossa vida, traduzem sentimentos e coisas que não conseguimos e passam a nos acompanhar como amizades que duram anos. Sou eternamente grato pelo “O mano na porta do bar”. Se não fosse “ele” não sei onde estaria agora.

Quando que você percebeu que não queria ser ouvinte e pensou: quero ser MC, quero fazer rima e pah?

Gugu: É difícil dizer com precisão, até por que tudo foi acontecendo sem nenhum planejamento. Minha geração vem de uma época que, até pra saber a parte teórica do rap, história e etc..., tinha que estar em contato com a parte prática. Não existia tanto acesso a informação como hoje, e o máximo acesso que tínhamos era através do YO! Mtv, as raríssimas ‘The Sources” (ninguém falava inglês e o resultado era: ou você imaginava o que eles estavam falando/pegava o dicionário e traduzia pagina por pagina ou apenas olhava as figuras pra ver os Nikes e Akademiks que os caras estavam usando), o Bocada Forte, quando rolava uma internet no Sesc Ipiranga e a 105 FM. Tirando essas fontes, o baile e as festas eram o único lugar onde você iria encontrar pessoas que entendiam mais, que poderiam ensinar alguma coisa ou que você poderia ouvir os mais velhos conversando e tentar aprender algo. Poucas perguntas, ouvíamos mais do que falávamos e guardávamos as informações como tesouro. Era uma época de pesquisa e de vivenciar as descobertas, uma por uma.
Eu cresci junto com o Flow MC, Hadee, junto com a Santa Cruz e acredito que o momento em que a gente começou a tentar tentar fazer um som foi quando a gente descobriu “Quinto Andar”o “Rima Rhara” o “Direto do Laboratório” e pensamos: por que não? Lembro de uma vez, tentarmos montar um aquário de estúdio dentro do box do banheiro do Hadee, passando os cabos pela casa inteira pra chegar no computador que tava na sala. Tudo era tentativa e erro. E tudo resultava em algum aprendizado.
Nunca deixamos de ser fãs, apenas queríamos fazer parte fazendo som e nisso percebemos uma coisa que talvez tenha feito toda a diferença: o quanto é mágico uma caixa de som e as pessoas ouvirem o que você tem a dizer quando se tem 16, 17 anos. Talvez esse click tenha feito a diferença na nossa vida.
A chance de se expressar, de por pra fora toda a agressividade, anseios, de dar voz aos amores adolescentes e jogar isso no mundo sem a pretensão de algum retorno, apenas fazer por sentir necessidade, nos fez encarar aquilo que éramos da forma mais corajosa possível: expondo ao mundo.
Fazer música dessa forma é como pegar um pedaço bruto de gesso e fazer disso arte. 
28/10/2005, eu, Flow Mc e Hadee, subimos no palco pela primeira vez numa festa de Halloween de um colégio chamado Alcantara Machado e ali, naquele momento em que as cortinas se abriram, tudo fez sentido. Aquele dia eu entendi o que eu era e decidi o que iria trabalhar pra ser: MC. Tudo podia esperar, o mundo estava nos ouvindo. Foi foda.

Como, quando e inspirado em quem ou em que, você decide criar a "Infinity Class" ?

Gugu: Infinity Class surgiu do convite do professor Fábio Abdul do colégio Miguel de Cervantes para o projeto: De repente ao Rap, que tem como objetivo trabalhar literatura de uma forma diferenciada com os alunos. A ideia essencial do Infinity é suprir algo que fui percebendo ao longo do tempo: a falta de interesse, principalmente dos mais novos, em saber os começos e os por quês.
Quando falamos em Hip Hop falamos em uma cultura que nasce nas comunidades negras norte americanas e que se espalha pro mundo inteiro se tornando uma linguagem universal, e a história real disso precisa ser passada pra frente. Quando perdemos contato com nossa raiz, perdemos contato com o que nos trouxe até aqui, fazendo com que o se perder seja só questão de tempo. O infinity vem pra facilitar esse acesso e perpetuar uma história que jamais pode ser esquecida ou apagada.
O nome, Infinity Class, é inspirado nas Infinity Lessons, de Afrikaa Bambaatta, que nada mais eram que aulas ministradas dentro da Zulu Nation, Ong criada por ele próprio, sobre diversos assuntos e que trabalhavam desde gravidez na adolescência até poesia. Acredito que dentro desse formato, o Hip Hop encontrou de exercer sua parte social.
Bambatta defendia quatro pilares importantes na Zulu Nation: Peace/ paz. love/ amor, unity/unidade e having fun/diversão, e se desdobrarmos esses quatro itens vamos conseguir perceber que uma das principais funções da Ong era propagar uma cura pra comunidade negra através da arte, educação, informação. Pensando assim, fiz o desenho do Infinity Class em cima de um recorte que mostra exatamente isso: o quanto o Hip Hop foi capaz de reerguer um povo, da a auto estima até financeiramente, e continua fazendo seu trabalho até hoje.
É uma história muito bonita e nós, como membros dessa cultura, não podemos deixar que ela perca sua verdade.

A sua palestra "Infinity Class" a princípio foi desenvolvida através de um convite para palestra num colégio particular. Como os alunos e professores receberam a palestra?

Gugu: Eu sempre pensei que iria existir algum tipo de resistência, porém, nunca encontrei nenhum embate em relação a isso. Sempre tive total liberdade para trabalhar qualquer assunto dentro da sala de aula. A ideia do projeto é traçar uma linha de raciocino de forma cronológica que mostre que o Hip Hop não surgiu como um acidente e sim, nasceu dentro de episódios históricos de muita dor e resistência do povo negro.
Sobre o conteúdo, meu pai diz que contra fatos, não existem argumentos e o Infinity Class, não deixa de ser uma aula de história. A diferença é que não é a história que está na maioria dos livros das escolas. É a história que foi escondida no rodapé deles. A história que foi silenciada, omitida e se tornou desconhecida, inclusive para muitos educadores.
Infinity Class é uma ferramenta que propõe uma nova forma de ensino.
O Hip hop adequando a sala de aula a sua realidade e não o contrário. Tem uma frase do Eduardo Galeano que diz: enquanto os leões não tiverem contadores de história, o mérito das caçadas será sempre dos homens. O infinity é a história dos leões. E o quão alto eles rugem hoje.

Para contratar um Infinity Class na sua escola, faculdade, etc... Ou para mais informações, só enviar um e-mail para marcellogugu@gmail.com

Bom, a Ana é educadora também, e acompanhamos seu trabalho na Fundação Casa com o Infinity Class. Sabemos que a troca de vivências nesses espaços é enorme, e gostaríamos de saber quem era o Marcello antes desse projeto e depois. E também, se você faz alguma proposta contrária? No sentido de formar pessoas do Hip Hop pra que não esqueçam desse compromisso e responsabilidade social, embora não seja algo obrigatório, e necessário.

Gugu: Fundação Casa é um dos lugares que eu sempre quis estar com o Infinity Class depois que comecei, porém, muita coisa mudou desde que iniciei meu trabalho lá a cerca de 5 anos atrás. Primeiro que a fundação é um universo a parte e muita coisa programada fora não acontece como planejado la dentro.
O próprio Infinity Class tem um recorte muito diferente quando está do lado de lá, dado a dificuldade, a falta de estrutura emocional, educacional e psicológica que vários adolescentes se encontram.
Entretanto, o Hip Hop é, também, a arte de se adaptar e não seria diferente, então criei, assim como no Infinity, uma linha cronológica de musicas e utilizo desde a década de 70 até os dias atuais para criar junto com os adolescentes, a historia do rap e a historia do funk através de som.
Uma das principais diferenças do Infinity lá dentro, é que precisamos entender que, muitas vezes, não da pra um adolescente imaginar o que é, ou onde é o bronx, quando ele não consegue nem entender da onde veio. Então fazemos diferente: a idéia é trazer esse jovem para um universo no qual, através das conversas e das musicas ele se sinta confortável para baixar a guarda e tentar ver possibilidades ao redor. É um trabalho que exige gostar. A realidade é muito dura, e as histórias muitas vezes são piores.
Nessas, muita coisa acaba sendo transformada. Só quem já esteve daquele lado consegue configurar o estrago que faz a falta de políticas publicas e o acesso a cultura educação e lazer.
É um trabalho de formiga, é acreditar num Hip Hop que pode ser utilizado como agente de transformação social, e a partir disso, auxiliar as pessoas ao seu redor a direcionarem suas vidas, visões do mundo, suas formas de enxergar e se enxergar dentro de uma sociedade.
Eu acredito que transmitir ao próximo algo que contribua para seu crescimento pessoal faz com que formamos uma rede para melhoria de uma comunidade e quanto mais gente acreditar nisso, mais força e mobilização teremos para auxiliar o próximo que se encontra em uma situação não tão esclarecida, e isso vai além da fundação casa, isso vai para asilos, para lugares que necessitam de pessoas que tragam essa energia transformadora, na qual, eu acredito que o Hip Hop é e que todos que fazem parte dessa cultura tem.
Quanto a proposta contrária, acredito que cada um tem livre arbítrio pra escolher o que quer fazer. Não sou o ‘pregador’ que diz como ou o que as pessoas devem fazer, mas, uma coisa eu vejo: as oficinas, os infinitys, em grande parte, são sempre abertos e em 6 anos fazendo, vi poucos Mc’s nas minhas salas pra trocar umas figurinhas.

Em um dos seus depoimentos no documentário "O rap pelo rap", você diz: "O Hip Hop me situou no mundo". Nesta parte você está falando que o Hip Hop te fez descobrir os problemas sociais e raciais. Te fez entender como é ser um branco no rap e etc.
Eu acho do caralho ver você falando destas fitas, pois é algo raro em MC's brancos abordarem estes assuntos, pois tem medo de ser acusado de ta roubando lugar de fala ou preferem só sugar da cultura e pah. 
Quando você está na sua palestra falando destas fitas, em algum momento você já foi questionado? E pra você qual a importância de pessoas brancas do Hip Hop terem esta postura que você tem?

Gugu: Infinity Class tem uma característica muito própria: é uma aula de história e eu, apenas o narrador de fatos que aconteceram, que, num recorte previamente estabelecido, mostro a quem está vendo, episódios que foram fundamentais para a construção do caráter da essência da cultura Hip Hop. Existe uma linha muito tênue que sempre busquei respeitar: por ser uma cultura coletiva, o Infinity é
construído a partir da visão de todos aqueles que estão no ambiente e queiram participar. Ainda não fui questionado talvez por sempre buscar entender de onde posso entregar esse assunto sem estar querendo soar protagonista ou roubar o lugar de fala de alguém. As pessoas presentes, que queiram dar depoimentos, falar sobre experiências próprias, fazem e eu, no máximo, conduzo a conversa para que ela flua, até por que geralmente temos um tempo pré determinado. No mais, é como um bate papo, em que todos estão convidados para participar e tendo que, o hip Hop sempre foi uma cultura de troca, a ideia do Infinity é permitir que essa troca aconteça e o aprendizado seja coletivo.
Se não sabemos da onde viemos, não saberemos para onde vamos e propagar a história do Hip Hop é garantir que as novas gerações terão base e fundamento para dar continuidade em algo que teve seu início a muito tempo atrás. Numa era onde o valor mercadológico e o imediatismo pautam o valor das coisas, o esvaziamento de símbolos culturais e a transformação dos mesmos em produtos para consumo faz com que, em pouco tempo, a Lauryn Hill possa deixar de existir para uma nova geração e em seu lugar Iggy Azalea se tornar um novo símbolo, fazendo com que o Hip Hop perca sua representatividade negra e passe a se tornar outra coisa, o que é inadmissível, dado o histórico e a importância dessa cultura.
Isso significa, para nós, pessoas brancas dentro do movimento, que é necessário reconhecer os privilégios que temos, que é necessário prestar atenção nos discursos e no que se propaga e que precisamos estar atentos para não silenciar ou tomar o lugar de fala de alguém. Precisamos pesquisar, ler, entender e internalizar o conceito de que, numa sociedade estruturalmente racista, o exercício de reconhecer os erros é diário, assim como a busca de mudança. O Hip Hop ensina, nunca foi uma cultura excludente, e sempre trouxe muita informação, cabe buscar e por em prática.

"'A Batalha do Santa Cruz' é um documentário que apresenta o que acontece na famosa rinha de MC's, que se passa na cidade de São Paulo, próximo à estação de metrô Santa Cruz. Além disso, aborda a história do rap no Brasil." (Assista aqui)


Mano, é certo dizer que a Santa Cruz está pra sua geração o que a São Bento é pra geração do Thaíde?

Gugu: Em suas dadas proporções, acredito que sim. Acredito que a Santa Cruz tem uma energia criadora semelhante da São Bento. Claro que são outros tempos, outra realidade, mas acredito que as duas surgiram com uma proposta de propagar a essência de uma cultura e ambas fizeram isso muito bem.
Tanto que temos a São Bento como ‘marco’ do inicio da cultura Hip Hop em São Paulo e a Santa Cruz como “Solo Sagrado” das batalhas de Mcs. O Hip Hop é cíclico, em breve aparece outro lugar, com uma essência parecida e que vai gerar uma nova transformação, assim como elas duas geraram. Isso garante a longevidade do nosso movimento e acaba transformando lugares e pessoas. É bonito de ver que, de tempos em tempos, o Hip Hop se renova e eu me sinto muito abençoado de ter feito parte de um desses momentos da história, junto com o Santa Cruz.

Por falar na Batalha do Santa Cruz. Mano um fato engraçado que lembro, foi quando o Cabal colou no Santa pra batalhar. Acho bacana você contar esta história, porque pelo que eu lembro foi algo que vocês falaram pelo Orkut que fez ele colar lá. Esta fita é lembrada até hoje em alguns grupos de rap pelo Facebook. Poderia nos contar?

Gugu: Esse dia é uma daquelas coisas que você não acredita até acabar. O que aconteceu foi que: Existia uma comunidade no Orkut da batalha do Santa Cruz e a gente da Afrika Kidz tinha feito um flyer pra convidar as pessoas pra irem pra batalha. Nessa época, no Orkut, tinham centenas de comunidades que o pessoal batalhava virtualmente, digitando as rimas e a gente colava o flyer nessas comunidades, desafiando o pessoal a aparecer pra fazer na rua. O lance foi que alguém, não sei quem, foi até a página da Pro Hip Hop, coletivo do Cabal na época, e postou algo do tipo: Quero ver se é Mc mesmo, Mc de verdade batalha na rua e não sei o que. No final de semana seguinte, a Santa Cruz teve um dos episódios mais icônicos de sua história: o dia em que o Cabal, que havia estourado a pouco tempo com o hit 'Senhorita', aparece e entra numa batalha sem nem ter ideia do que ia encontrar. Aquela época, o Santa Cruz só tinha cachorro louco. Era quase o começo do UFC, todo mundo ali queria ser alguém naquilo, então a vida era aquilo. O que pouca gente sabe é que aquele dia foi especial em muitos sentidos, o Santa Cruz passou a ter uma maior visibilidade e foi a primeira vez que ganhei a batalha. Um dia memorável. Hoje tenho uma vontade pessoal, encontrar com o Cabal pra conversar sobre esse dia e ouvir dele o que ele sentiu, o que ele achou, por que no fim, só sei do nosso lado da história. Como isso não aconteceu ainda, fica pro tempo se encarregar de manter a magia desse episódio e quanto ao que circula nos grupos, a lenda é real, aconteceu e eu tava lá (risos).

Em diversos momentos você fala sobre sua insônia. Ela é sua melhor amiga ou pior inimiga? Pergunto isto, porque acredito que muitas de suas músicas e textos devem vir deste momento. E ai, como você classifica?

Gugu: São 6 da manhã. Comecei responder essa entrevista a 1. Já assisti dois documentários, comecei a ver um filme, parei e ouvi 8 vezes o disco do Daniel Caeser. Minhas noites são assim. Escrevo, paro, leio, penso, ouço. Gosto da insônia e da solidão que ela me traz, por que consigo me ouvir e, se quiser, consigo parar e não ouvir nada. Acho que se tivesse que classificar, deixaria como melhor amiga, por que já me trouxe tanta coisa boa em relação a criação, introspecção e reflexão. Acho a madrugada acolhedora, mas ao mesmo tempo, egoísta. Não dá pra servir a dois senhores, ou é ela, ou é o dia. Enfim, acho que é uma questão de adaptação. A noite não é só de quem gosta, mas também, de quem a aguenta.

Vou Samplear um trecho da musica "Acordar (Aviões de Papel)" do meu mano Yannick vulgo Shazam. Mas e ai, seja bem sincero, olha pra você hoje, você é aquilo que você imaginou quando criança?

Gugu: A gente faz tantos planos, imagina tantos futuros e nem se dá conta que, as vezes, a vida já traçou os finais dos caminhos por onde vamos andar. Escolhemos entre entrar ou sair, direita ou esquerda, mas a estrada estava lá, esperando nossos passos, mas sabendo onde ia dar. Acesso a gente não tinha, e vai se descobrindo. Acho que a beleza da vida está nisso, no segredo. Quando tudo se sabe, por nada se encanta. Quando eu era criança eu queria desenhar. Nunca tive habilidade nenhuma pra isso. Eu achava muito louco aquele monte de lápis de cor mas me frustrava por que queria usar os lápis mas não tinha no que. Eu então descobri que se escolhesse uma palavra num livro e pintasse a folha inteira eu teria ela destacado e na minha mente teria a figura que aquela palavra representava. Se estivesse escrito carro, teria o carro que quisesse na minha imaginação e mais que isso, você, se lesse, também teria, do seu jeito. Não me imaginei ser o que sou, ou como as coisas se desdobraram pra que estivesse onde estou, mas uma coisa é certa: continuo usando as palavras, pra imaginar quantas figuras quiser ou puder com as coisas que eu escrevo. E ao entregar isso pro mundo, permito que você faça o mesmo. Só não risco mais as páginas dos livros, afinal, em 20 e poucos anos algumas coisas tem que mudar.

Marcello Gugu - Até que enfim Gugu / Youtube


Você trampa com o DJ Duh, conhecido por nós como "Duh Wonder"...rsrs (explanando piada interna), desde o "Até que enfim Gugu", como vocês se conheceram?

Gugu: Conheci o Duh, acho que em 2010, através de um SoundCloud, mandei mensagem, ele respondeu e fizemos o ‘Até que enfim gugu’ sem nunca termos nos visto. Foi uma coisa meio Foreign Exchange, por que fui conhecer o Duh depois que o disco estava na prensagem, numa Battle Beats que teve em Sp. Fizemos todo o processo do disco virtualmente, então mandava um verso, uma idéia, um pensamento e ele mandava uma batida, eu pontuava o que curtia, o que não e a gente afinou 17 faixas assim. Conhecer o Duh foi um presente da vida, que além de ser um profissional talentosíssimo, tem um coração do tamanho do mundo e é uma das pessoas mais incríveis que a música já me trouxe. De um grande companheiro de estúdio, nos tornamos grandes amigos e a parceria continua até hoje, dentro e fora da música. Iniciamos o Índigo, porém, dessa vez, ao invés de virtualmente, em estúdio e na companhia de mais dois gênios da música, Leandrinho (Guitarra) e Weslei (baixo).

E tudo indica que ele vai produzir seu próximo álbum, o "Índigo". Há quanto tempo você vem trabalhando nele? É certo que ele sai em 2018?

Gugu: Sim, e não só produzir, o Duh assina também a direção do disco, e tem me ensinado muito sobre criação e trabalho em equipe. Estamos mexendo no disco a mais ou menos uns dois anos, entre idas e vindas, conceitos, criação. Não vou colocar uma data, mas a ideia é pra que saia em 2018. Uma coisa é certa: esse ano, tudo que não está no disco vai pra rua na forma de single. Já começamos com “O balé de Muhammad Ali”, tem um spoken que chama “Aonde morrem os Elefantes”, e mais algumas coisas até sair o disco com as 15 faixas.

Gugu, a gente sempre comenta entre nós e com o Duh, que você é um cara que trampa quieto. Não te conheço pessoalmente, mas você é um cara que não tem o nome passeando entre bocas pró hype hahahaha a gente sabe que infelizmente isso tem se tornado algo raro, algumas pessoas se propõem a fazer coisas só pra ser destaque. A gente queria saber, isso é algo seu, somente seu, ou tem a ver também com suas referências no meio?

Gugu: Acredito que existe uma forma de ser imortal: A arte. Enquanto sua energia reverberar por aqui através de uma criação sua, você, de certa forma, ainda estará por aqui. A vida é um sopro, tudo é muito rápido e ter essa consciência me faz cuidar da minha música de uma forma especial. Dizem que deuses deixam de existir quando não se reza mais pra eles, e criar musica pro tempo, significa que as pessoas, ao te ouvirem, farão sua energia circular por aqui, e isso é existir, mesmo quando não se está mais
nesse plano. Quantas vezes você não se pega ouvindo uma música de alguém que não esta mais por aqui e pensa: tão atual, parece que foi feita ontem. A impressão é que quem fez ainda está por aqui e é isso que eu quero deixar quando me for. Cada música como um universo próprio. A gente nunca sabe como ou quando o som chega nas pessoas, não sabe o efeito que vai ter ou imagina se quer o quanto, talvez, pode mudar a vida de alguém. Por isso faço o que acredito, o que sinto vontade, o que quero fazer. Busco criar coisas que façam sentido hoje e daqui 20 anos. O mercado tem data de validade, arte não.
No mais, em relação a referência, gosto muito do Common, de como ele trabalha as coisas dele e o efeito que o que ele cria tem na vida das pessoas, ao passo que gosto muito do Kendrick também. Talvez o meio termo é a busca que tenho tido no momento. O desafio é alimentar o mercado sem deixar de ter a liberdade criativa que o trabalho independente me permite ter.

Mano, fui pesquisar o significado da palavra "Índigo" no dicionário e diz: que é uma matéria azul violácea extraída do indigueiro. Mas lembrei de algo que li sobre "Crianças índigos". 
A parapsicologia acredita que estas crianças são especiais. O defensores desta crença afirmam que os "índigos" constituem uma nova geração de crianças com habilidades especiais, e que tem uma implantação de uma Nova era na humanidade. São crianças com habilidades sociais mais refinadas, de maior sensibilidade, e de um profundo desenvolvimento ético-moral e portariam personalidade peculiares que possibilitariam facilmente sua identificação relativamente a outras crianças. 
Pra finalizar. Afinal, porque se chama "Índigo" e o que podemos esperar dele?

Gugu: A teoria da parapsicóloga chamada Nancy Ann Tappe defende que, da década de 80 pra frente, crianças ‘diferente’ começaram a nascer no planeta Terra. Segundo ela, seriam as crianças que iniciariam um momento de transição no planeta. Ela chegou a essa conclusão, pois, da década de 80 pra frente, começaram a aumentar o número de crianças hiperativas e com problemas de comportamento em seu consultório e por ser parapsicóloga, ela via que a vibração energética desses pacientes, as auras, tinham um padrão semelhante e uma cor tb: azul Índigo.
Ao conviver com elas, desenvolveu um estudo, que, ao contrário do que muita gente diz, não põe essas crianças no pedestal como seres angelicais e sim, como crianças com uma série de dificuldades principalmente no campo de relações inter pessoais.
Quando falamos nessa ‘nova geração’, principalmente os índigos, temos que nos atentar que, se são ‘crianças’ que vieram pra transformar o meio, com certeza boa parte delas se sente deslocadas, tende a ter problemas comportamentais e dificilmente se enquadram em padrões sociais pré estabelecidos. Em algumas publicações, relatos de suicídio, abuso de drogas e comportamentos destrutivos, permeiam muitas narrativas de crianças consideradas índigos, pois não se adaptaram ao ambiente e a fuga da realidade se tornou sua busca, ao invés de tentar muda-la.
Claro que são TEORIAS, nada provado pela ciência, mas é aquilo: um dia descobriram que a Terra não era quadrada, a penicilina e etc... talvez um dia, comprovem a teoria que, de tempos em tempos, na mudança das eras, levas de espíritos transitam entre lugares afim de evoluir e ajudar no processo de evolução. Os espiritas já falam em migração planetária desde Capela, Lemuria, Mu, Egito, então, em teoria, não é algo novo e sim, algo que está acontecendo de novo.
Como são apenas teorias, o disco busca ser algo de fácil acesso, uma proposta e contar uma história: Ele amarra um momento da minha vida em uma questão que todo mundo uma hora ou outra vai se deparar e, atrelado a isso, o conceito das crianças índigos, da mudança e do que isso pode representar pra cada um. Estamos começando a viver um novo momento no planeta, a mudança, aos poucos está acontecendo, e individualmente o disco é o reflexo dessa transição. Espero que as pessoas possam sentir da mesma forma que tenho sentido e curtirem esse novo momento depois do Até que enfim gugu.
Por enquanto, ainda não tem data, e vamos soltando singles das coisas que não entraram pro disco,

mas em breve, ele ta na rua pra todo mundo ouvir!

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